Entrevista com Evelyn Oliveira - Parte II
- 24 de ago. de 2015
- 5 min de leitura

Dados da entrevistada:
Nome Completo: Evelyn de Oliveira
Idade: 28 anos
Profissão: Atleta da equipe SESI e Universitária
Deficiencia: Síndrome do corno anterior da medula
Tipo de deficiência: Congênita
Sobre:
Evelyn Oliveira é uma atleta do bocha paralímpico. Ela pertence à classe BC3 e foi Campeã Paulista e Campeã Brasileira no ano de 2014.
Neste ano de 2015, participou da Copa América, que foi realizada em Montreal, no Canadá, na qual o Brasil conquistou um ouro e duas pratas.
Além de ser atleta, Evelyn faz faculdade de Publicidade e Propaganda na UMC e seu sonho é poder fazer jornalismo. Também é palestrante e em suas palestras sempre deixa sua principal mensagem: a de superação.

Segue a continuação da entrevista com a campeã:
Rebeca Suzuki: Você sempre teve uma cadeira motorizada? E o que isso trouxe de bom para você?
Evelyn Oliveira: O meu primeiro contato com cadeira de rodas foi na adolescência, com 14, 15 anos e com cadeira emprestada e tudo. Até então, eu só me locomovia no colo, se eu queria ir da sala para o quarto ou banheiro, essas coisas, era só no colo. E aí eu tive uma cadeira manual emprestada, passou um tempo, um vereador me doou uma cadeira manual. Mas na manual eu não poderia fazer muitas coisas. Eu ia para escola, mas eu dependia de pessoas que me levassem até a escola. Eu ia para a igreja, eu participava de uma banda na igreja, então eu dependia dos meus amigos para me levar para a igreja, a gente tocava em outros lugares e eu dependia deles para me levar. E em 2010 eu ganhei uma cadeira motorizada, numa situação assim, bem involuntária, fazendo uma reportagem aqui em Suzano, - a gente estava gravando uma reportagem sobre acessibilidade aqui em Suzano - e o repórter viu que eu precisava de ajuda para sair de um lugar para o outro, porque eu não consigo tocar a cadeira manual e aí ele espontâneamente decidiu me dar a cadeira motorizada, então desde 2010 eu tenho. E foi uma mudança total na minha vida, porque hoje eu sou estudante de Comunicação Social desde 2013, e eu reconheço que se eu não tivesse a cadeira, muitas coisas que evoluíram na minha vida, muitas atividades que eu tenho hoje, talvez eu não tivesse, porque não é fácil e não é sempre que a gente tem uma pessoa disponível. Que seja a família, porque a família da gente também tem a vida que precisa seguir, às vezes tem dor, acorda com dor, e às vezes não quer sair, tudo, então eu reconheço que talvez se eu não tivesse a cadeira motorizada, eu não teria, sei lá, os grandes resultados que eu tenho dentro do esporte, porque isso envolve dedicação ao treino e também envolve a independência de eu poder ir até o ponto de ônibus sozinha, não precisar de repente, mobilizar alguém da minha casa ou um amigo para me trazer, então eu posso investir mais tempo em treinamento aqui, a questão de eu ir estudar, porque eu chego em casa 10 horas da noite então eu pego o trem, pego o ônibus até em casa, e tudo isso, com uma pessoa tendo que empurrar a cadeira motorizada, às vezes é rampa pra subir, seria muito mais difícil, então assim, até mesmo dentro de casa, a independência que a cadeira me trouxe é algo fantástico! Às vezes eu ficava sozinha, porque meus pais tinham que trabalhar, tinham que resolver as coisas e às vezes, sei lá, chegava a hora do almoço, a comida, está lá na geladeira, ou em cima da mesa, mas se eu não tivesse uma cadeira motorizada eu não tinha como ir até ela. E hoje esse cenário já é diferente: se os meus pais saem, as coisas estão lá na mesa, eu consigo, eu vou lá pegar, e esse problema eu não sofro mais. Então, a cadeira motorizada, no meu caso que tenho uma deficiência mais severa e não consigo tocar uma cadeira de rodas manual, é algo que facilita muito e me possibilita muitas coisas.
Rebeca Suzuki: Você disse que faz faculdade. Como andam as coisas por lá? Está gostando do curso?
Evelyn Oliveira: No início da minha adolência eu acompanhava muito telejornal, aí me desenvolveu muito o desejo de ser jornalista, de trabalhar com comunicação, talvez até para promover alguma melhoria em toda a situação que a gente vive, enfim, poder denunciar ou mostrar as dificuldades que a gente tem e formar opiniões de alguma forma, através de textos, então me desenvolveu esse desejo de ser jornalista. Eu fiz o Ensino Médio, mas eu acho que o que foi mais fundamental na minha entrada na faculdade, foi quando eu comecei a querer entrar no mercado de trabalho (na epóca eu nem tinha cadeira motorizada ainda) E eu saía para fazer entrevistas, participar de processo seletivo, na época não tinha nem lei de cotas ainda, e mesmo que existisse eu acho que não me favoreceria por conta da severidade da minha deficiência, então assim, sempre que eu ia fazer entrevista eu escutava muitos recrutadores dizendo assim: "No caso, se eu te contrato, eu preciso contratar duas pessoas, porque você precisa muito de ajuda". Então, a partir daquele momento, em que eu estava fazendo aquelas entrevistas, eu entendi: "Bom, eu não posso ser funcionária, eu tenho que ser patroa, e para ser patroa eu tenho que estudar". Aí eu pensei: "Não, eu preciso então, fazer uma faculdade, preciso ter o ensino superior e criar a minha própria empresa, sei lá, ter o meu negócio, trabalhar na minha casa...". E como eu já gostava de comunicação, eu terminei o ensino médio, fiz 8 meses de cursinho, porque eu ia prestar o ENEM , e eu pensava (na época, o ensino do estado já era bem defazado) - que "só com o ensino médio não vou conseguir passar no ENEM, não." Aí eu fiz 8 meses de cursinho comunitário, prestei o ENEM e passei. Aí consegui a bolsa - eu sou bolsista na Universidade de Mogi das Cruzes - e estou no 5° período de Publicidade e Propaganda. Queria fazer jornalismo quando eu entrei, mas não formou turma, aí a minha segunda opção no Prouni era Biologia, fiz 6 meses de Biologia, bem nada a ver com Jornalismo e Publicidade, mas eu gostava bastante de biologia, então foi minha segunda opção, eu fiquei lá 6 meses, mas aí foi e me bateu aquele negócio: "Não, não estou na área que eu quero". Aí todo mundo falava para mim: "Evelyn, se você queria fazer jornalismo, publicidade é a mesma área, comunicação, ou relações públicas, qualquer outra coisa que seja da comunicação você poderia fazer". Aí, a partir do segundo semestre eu mudei para publicidade. Hoje eu estou no 5° período, e assim, eu não me considero compleramente realizada porque apesar de ser a mesma área, são vertentes diferentes. A publicidade é muito mais para mercado, publicidade e propaganda, o que não é o meu objetivo, o meu objetivo é trabalhar em jornal, redigir textos, enfim, fazer noticiários, essas coisas, mas pelo menos, eu me sinto no caminho para chegar mais próximo do meu sonho de ser jornalista, então hoje eu me considero feliz. Eu estou feliz fazendo algo que eu queria.




















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