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Nada quebra seu espírito

  • 3 de out. de 2015
  • 6 min de leitura

Publicado originalmente por Selecciones Argentina

Os pais de Jessica Bernstein a tiraram da cadeira de rodas para colocá-la no carro, e levá-la ao hospital. Cheia de medo, a delgada garota de 15 anos, implorava:

—Não! Não me levem! Não quero ir!

Ela teve mais cirurgias do que festas de aniversário; havia passado mais tempo sentindo dores e recuperando-se das fraturas e das intervenções [cirúrgicas] do que apenas sendo uma garota. Não podia suportar nada mais; claro, mesmo que tenha implorado para deixarem-na em paz, sabia que não havia outra opção.

Poucos meses antes, no inverno de 2009, a doutora Jenny Frances, sua cirurgiã do Centro Infantil do Hospital de Enfermidades Articulares de Manhattan deu-lhe um descanso. Uma das hastes de sustentava seus ossos se moveram, mas quando el suplicou que a deixassem assim, a médica concordou em esperar até que a menina se sentisse pronta. Agora, umas dores terríveis lhe indicavam que algo ia muito mal. Não podia mais esperar para receber o tratamento.

Jessica nasceu com osteogenisis imperfeita, uma deficiência genética muito rara, também conhecida como "ossos de vidro". Seu esqueleto era tão frágil, que ambas as pernas se romperam e se juntaram ainda antes de nascer. Sofreu muitas fraturas a mais, quase sempre nas pernas.

Desde pequena ela queria imitar sua irmã mais velha Marisa, em tudo. Enquanto as outras crianças de sua idade já caminhavam, ela se arrastava no piso com suas nádegas. Como seu avô temia que ao andar ela fraturaria os braços, ele fez para ela um skate, no qual ela poderia sentar-se sobre ele e movimentar-se pela casa.

Quando a garota cursava o Ensino Fundamental II, colocaram-lhe suportes ortópedicos desde o quadril até o joelho. Feliz de poder caminhar sem ajuda pela primeira vez em sua vida, Jessica os colocava todos os dias. Mas, no ano seguinte, enquanto cruzava uma das portas da escola, prendeu um dos pés na porta. Mesmo que não tenha caído no chão, um piso em falso bastou para que fraturasse as duas pernas.

Em um período de 18 meses, fizeram nela 3 operações, o que causou uma mudança em seu humor; Até então, estava disposta a esforçar-se mais do que se podia esperar, mas agora, sentada na cadeira de rodas, ela se negava a passar pela esgotante fisioterapia pós-operatória, que lhe ajudaria a usar muletas e voltar à escola. Ela se encantava pelo fato de que suas amigas conviviam com ela, mas também as invejava, porque podiam brincar ao ar livre e fazer tudo o que as pessoas "normais" faziam. Jessica também queria ser uma garota "normal", mas acima de tudo, desejava viver sem dores.

Quando regressou à escola, no quinto ano, ela começou a usar as muletas com precaussão, mas decidiu nem sequer usar apenas uma delas, como havia feito antes, para não cair. Desde pequena havia suportado com valentia os frequentes exames de sangue que a sua deficiência exigia. Agora chorava e implorava para que as enfermeiras a deixassem em paz. Já teve mais que o suficiente

Aos 14 anos, alcançou a altura máxima que os médicos haviam previsto: 1,26 metros. Mas como tinha muita pouca atividade física seu peso disparou. Queria usar os mesmos tops brilhantes e vestidos floridos que as suas amigas vestiam. Era importante estar bonita agora que os garotos estavam na sua mira, por isso foi proposto se alongar e fazer mais exercícios. Ela perdeu alguns quilos, o que aumentou a sua autoestima. Então começou a doer-lhe a perna direita...

No hospital, Jessica, já com 15 anos, pensou que todos os seus esforços tinham sidos inúteis. Por expériência, sabia que a recuperação pós-cirurgica seria longa - seis meses, pelo menos - e dolorosa, mas desta vez teve uma grande surpresa; a cirurgia seria um pouco mais simples que as anteriores, lhe disse a doutora Frances, enquanto revisava suas radiografias. Como o osso tinha se quebrado apenas por cima, fariam uma pequena incisão para tirar a haste velha e colocar uma nova, em vez de abrir toda a sua perna com o bisturi.

Uns dias após a cirurgia, Jessica se surpreendeu ao comprovar que podia sentar-se na cadeira de rodas. No final da sua estadia de 9 dias no hospital, ela tentou ficar em pé, tendo cuidado para não colocar a perna direita no solo. Cheia de felicidade pelo bem estar que sentia logo após o procedimento cirúrgico, ela começou a recuperar parte de sua antiga determinação.

Mesmo que a fase inicial da fisioterapia em geral incluia muito pouco movimento, Jessica tentou novos exercícios, confiando que seus sentidos lhev diriam até onde ela poderia chegar. Apoiando-se em um andador, ela praticou levantar o corpo com os braços e movimentar as pernas para frente e para trás. Em seis semanas já podia dobrar o joelho. Era a primeira vez que conseguia resultados tão rápídos.

Para não perder massa muscular na perna, colocou um pouco de peso ao redor do tornozelo, e levantou a extremidade para exercitá-la. Ademais, aprendeu posturas de yoga: "Me serviram", disse. "Já não estava mais tão rígida". Pedalava em uma bicicleta fixa e a cada dia se fortalecia mais e adquiria mais confiança. A doutura Frances estava surpresa e contente que uma menina que sofria de osteogenisis imperfeita estava se transformando em uma "máquina de exercícios"

Logo se verificou que a panturrilha de Jessica não estava sarando devidamente. Os médicos tiveram que fazer outra reparação cirúrgica e ela teve de começar tudo do princípio outra vez.

Jessica agora era consiente de um feito alentador; seus ossos eram frágeis, mas seu corpo resistia cada vez mais e seu espírito para lutar seguia fortalecendo-se. Cada vez mais era mais fácil recuperar-se e voltar ao estado anterior à operação. Isso lhe permitu juntar-se às suas amigas no Ensino Fundamental

Contudo, Jessica tinha um sonho. Vivia com sua família a alguns passos de uma bela praia, na península de Rockaway, em Long Island e desejava fazer um passeio marítimo com seus vizinhos, mas nunca foi tão ágil com as muletas - ou paus - como ela as chamava - para descolar-se pelos decks de madeira do passeio. Decidiu que era o momento para tentar. Caminhou até o final da rua e seguiu em direção à rampa até o local do passeio, disfrutando o cheiro do mar e os grasnados das gaivotas. A batida dos "paus" contra a madeira era o som da liberdade. A vida de repente lhe pareceu mais rica e plena. Correr pela calçada para passear se transformou em parte de sua atividade cotidiana.

Ao final de 2012, o furacão Sandy assolou Nova York, e as imensas ondas destruíram o passeio marítimo. Ao desaparecer os decks de madeira, Jessica não podia passear junto a praia. As muletas não lhe serviam para andar sobre a areia. Pensar nisso a entristecia, até que se deu conta que este contratempo não devia pará-la. Teve uma ideia: E se pudesse caminhar sem muletas?

Com o ânimo renovado, apoiando-se nos móveis para não perder o equilíbrio, Jessica começou a mover-se pela casa com uma muleta só. Era menos difícil que havia imaginado. "Pronto, comecei a caminhar mais rapidamente", pensa. Pouco depois andava pelo jardim com apenas uma muleta sob o braço. Ao final de algumas semanas já era capaz de locomover-se pela casa sem muletas, apoiando-se em todo objeto que lhe permitisse ficar erguida.

Em uma tarde de fevereiro, quando o sol estava baixo e o vento calmo, a menina colocou uma sapatilha e roupas desportivas e saiu de sua casa, apoiada em somente uma muleta. Os vizinhos passeavam péla praia, alguns deles com seus cachorros. Jessica caminhou em sua direção e pela primeira vez cruzou o limite da calçada. A muleta se fundia na areia, o que mais atrapalhava que ajudava. Jessica se deteve um momento e ergueu a muleta para segurá-la com ambas as mãos. Deu um passo. Não sentiu a areia como havia imaginado, mas lhe pareceu maravilhosa: suave, macia e desafiante. Ajustou a postura para equilibrar-se e logo avançou um pouco mais, observando às pessoas que estavam na praia e que se movimentavam sem realizar nenhum esforço. Andar livremente! A garota pensou que as pessoas não faziam nem ideia do quão fabuloso isso era. "Me senti muito orgulhosa", disse "Era como se eu estivesse renascido na areia"

No outono de 2013, Jessica ingressou em uma universidade perto de sua casa. A confeitaria lhe encanta e mesmo que fazer sobremesas implica passar muitas horas em pé - algo que lhe parecia inimaginável há alguns anos - está decidida a estudar artes culinárias.

 
 
 

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